terça-feira, 13 de abril de 2010

HISTÓRIA DO IMPÉRIO ROMANO DO ORIENTE

Declínio e queda do Império Bizantino

A partir do século XI, o império Bizantino voltou a declinar. Entre as diversas razões de seu declínio, podemos citar:
• os enormes gastos militares para defender as fronteiras, ameaçadas pelos sérvios, nos Balcãs, pelos normandos, no sul da Itália, e pelos turcos otomanos , na Síria e na Ásia Menor;
• as violentas disputas pelo poder entre civis e militares;
• a perseguição aos que não seguiam a religião do Império.

Hagia Sophia, Basílica de Santa Sofia, construída em Constantinopla pelo Imperador Justiniano (527 – 565) atual Istambul

Assim aos poucos, o Império Bizantino foi se desintegrando e perdendo prestígio. No século XIV, os turcos otomanos conquistaram a Ásia Menor e a península Balcânica. O Império Bizantino ficou reduzido, então, a uma única cidade: Constantinopla. Em 1453, os turcos otomanos cercaram a capital bizantina por terra e por mar e venceram sua resistência com balas de canhão, armamento moderníssimo naquela época. Era o fim do Império Bizantino. Sob o domínio turco, Constantinopla passou a se chamar Istambul, nome que mantém até hoje. Atualmente Istambul pertence à parte européia da Turquia.

fonte: BOULOS JUNIOR, Alfredo – Coleção História Sociedade e Cidadania


O casamento e a família

No Império romano, a lei civil (…) fixava uma idade mínima para que o casamento fosse realizado: 12 anos para as meninas e 14 anos para os rapazes.
Os casamentos geralmente eram combinados pelas famílias e é curioso perceber a presença de intermediários, agentes matrimoniais que, mediante pagamento, conseguiam “bons partidos” às famílias interessadas e “bons dotes” à família do noivo.
A cerimônia nupcial era solene: o noivo acompanhado por músicos e cantores, buscava a noiva em sua casa e dirigiam-se juntos à igreja, com numerosos acompanhantes, sob uma chuva de rosas e violetas. Na igreja, após a cerimônia religiosa, os noivos eram coroados e trocavam-se as alianças. Em seguida, os noivos e convidados participavam do banquete na casa do noivo. (Homens e mulheres comiam separados para dar sorte.)
O marido era o chefe e protetor da família. (…) Era ele quem deveria manter a família. A mulher vivia principalmente no giniceu, cuidando dos afazeres domésticos e das crianças. Quando era rica, a mulher coordenava uma verdadeira corte de servidores livres, escravos (…). Raramente a mulher casada saía de sua casa; quando o fazia cobria a cabeça com um véu, por exemplo quando se dirigia à igreja ou aos banhos públicos (que tinham horários reservados às mulheres). As mulheres das camadas mais populares não viviam tão reclusas. Algumas trabalhavam fora e havia muitas atrizes, bailarinas, cantoras e flautistas. A mais famosa dessas “artistas” bizantinas foi Teodora, que se tornou imperatriz ao se casar com Justiniano.
Um grande acontecimento para a família bizantina era o nascimento de uma criança, ficando a casa repleta de parentes e amigos. Uma semana após seu nascimento, a criança era levada à igreja por seu padrinho para ser batizada. Era o padrinho quem escolhia o nome da criança, quase sempre o nome de um santo do qual era devoto. O padrinho era, também o tutor legal imediato da criança, na falta do pai.
Império romano do Oriente – Livro do Perfeito, século X
No império bizantino, o governo controlava diretamente toda a vida econômica. Assim o fabrico de tecidos de luxo e de armas, por exemplo era organizado pelo Estado e as atividades comerciais e artesanais estavam rigidamente regulamentadas. O texto a seguir apresenta trechos de um documento que estabelecia regras muito claras para o comércio de seda. Tratava-se de um artigo de luxo que obtinha altos preços no mercado, e o governo bizantino tinha interesse em manter seu comércio sob controle. A seda crua vinha da China por uma longa estrada conhecida como Rota da Seda.
Regras:
• Os mercadores de seda crua não podem exercer qualquer outra profissão, mas têm que praticar a sua publicamente, no lugar para eles estabelecido. […]
• Aqueles que vierem de fora (estrangeiros) para os mitata (albergues) com seda crua não terão de pagar tributos, exceto pela renda e alojamento; da mesma maneira, aqueles que lhes fizerem compras não serão obrigados ao pagamento de impostos.
• Quem quer que esteja para ser admitido [na guilda] (associação de comerciantes) dos mercadores de seda crua deverá obter o testemunho de homens honrados. […]
• Os mercadores de seda crua não devem vender seda por lavar em suas casas, mas no mercado, de maneira que a seda não possa ser enviada secretamente àqueles que estão proibidos de a comprar. […]
• Os mercadores de seda crua não deverão ter licença para fiar a seda, mas apenas para comprar e vender. […]
• Os mercadores de seda crua não deverão vender a seda a judeus ou a [outros] mercadores para revenda fora da cidade.
Livro do Perfeito. In:FREITAS, Gustavo de. 900 textos e documentos de História. Lisboa: Plátano, s.d., 1, p.117.


A prática do comércio, século XIV


O comércio era intenso no Império bizantino. Na costa leste do mar Negro, a cidade de Trebizonda se abria para as caravanas de mercadores que vinham da Ásia. Um pouco mais para oeste, também no mar Negro, a cidade de Quersonéia recebia produtos provenientes do norte da Europa. Já o comércio com as cidades da península Itálica, sobretudo Gênova e Veneza, era feito diretamente em Constantinopla. O texto a seguir faz referência à importância desse comércio.
Direitos que se pagam em Constantinopla, na alfândega do Imperador, pelos gêneros que os mercadores trazem e levam:
Os genoveses e os venezianos têm entrada e saída francas, não pagam nada. […]
Os florentinos, provençais, catalães, sicilianos e todos os outros estrangeiros pagam 2% ao entrar e 2% […] ao partir; são obrigados a pagar ao mesmo tempo a entrada e a saída.
PEGOLOTTI, Francesco Balduci. La pratica della mercatura. In: FREITAS, Gustavo de . 900 textos e documentos de História. Lisboa: Plátano, s.d., v. I,p. 117-8
O Império se expande
O império romano do Oriente atingiu seu momento de maior grandeza sob o governo de Justiniano (527-565) e de sua mulher, a ex atriz Teodora. Internamente, esse governo reuniu todas as leis do Direito romano no Corpus Juris Civilis ( Corpo de Direito Civil), obra extensa, composta de quatro partes:
• Código de Justiniano:coletânea de toda a legislação romana revisada;
• Digesto: conjunto de pareceres dos magistrados romanos;
• Institutas: livro para estudantes de Direito;
• Novelas: novas leis elaboradas por Justiniano.
O Corpus Juris Civilis é a base dos atuais códigos de Direito.
Externamente, sua grande realização foi tentativa de restaurar a unidade territorial do antigo Império romano, Por isso, mobilizou suas forças militares e conquistou sucessivamente o norte da África, todo o território da península Itálica e parte da península Ibérica. Ao mesmo tempo, o governo de Justiniano estabeleceu acordos com os governantes do Império persa sassânida, aos quais passou a pagar impostos para que as tropas persas não atacassem Constantinopla.

A Revolta de Nika

Tão logo chegou ao poder, em 527, Justiniano começou a pôr em prática seu plano de restaurar o antigo Império romano em toda a sua extensão. Para isso, fortificou as fronteiras de seu próprio império e reequipou o exército, preparando-o para as conquistas que estavam por vir. Ora, esses preparativos exigiam recursos. Para obtê-los, o imperador aumentou os impostos e criou novas taxas a serem pagas pela população, provocando forte descontentamento.
O hipódromo de Constantinopla atraía milhares de pessoas não só por servir à diversão, mas também porque lá se distribuía comida gratuitamente ao público, como no Coliseu em Roma. No segundo domingo de janeiro de 532, o hipódromo estava lotado. Sua capacidade era para 60 mil pessoas. O público acompanhava a corrida dividido em duas grandes torcidas: uma apoiava os Verdes e a outra, os Azuis. Estes eram os nomes dos dois principais partidos políticos da cidade. Ambos exibiam suas bandeiras e ensaiavam seus hinos. O imperador também estava presente. Ele e a imperatriz Teodora eram torcedores dos Azuis.
Torcer contra o time do imperador era uma forma de oposição política. Não se sabe bem por que, ao final de uma das corridas, os Verdes aproveitaram para fazer uma série de reclamações ao imperador. Reclamavam, sobretudo, do abuso de autoridade por parte dos funcionários do governo e dos impostos elevados.
O imperador tentou contornar a situação, mas não foi feliz: a população, aos gritos de Nika! Nika! (Vitória! Vitória!), marchou sobre o palácio imperial. Travaram-se então combates sangrentos entre os soldados e as forças populares, e vários edifícios foram queimados.
Vendo-se ameaçado, Justiniano decidiu fugir levando consigo as riquezas do tesouro imperial. Contam que, naquele momento, Teodora convenceu-o a voltar. Justiniano voltou e ordenou ao general Belisário que reprimisse o movimento. A repressão foi brutal: milhares de rebeldes alojados no hipódromo foram cercados e mortos. Era o fim da revolta popular de Nika.
Com a morte de Justiniano, em 565. o império bizantino entrou em um período de longo declínio. No começo do século VII, algumas de suas províncias, como a Síria, a Palestina e o Egito, foram ocupadas pelos persas. Mas a partir de 636 eles seriam ocupados por um novo inimigo os árabes mulçumanos, que também conquistariam o norte da África e a península Ibérica.
Mais tarde, os bizantinos foram expulsos também da península Itálica, que passou o controle de outros povos. Em 1204, uma cruzada financiada pela cidade de Veneza, na península Itálica, invadiu Constantinopla e saqueou boa parte de seus tesouros. E, 1453, finalmente, a cidade foi ocupada pelos turcos-otomanos, seguidores do islamismo, depois de um cerco que durou quase dois meses. Era o fim do Império romano do Oriente.

Constantinopla

Constantino, que governou entre 313 e 337, chamou-a de Nova Roma e para lá transferiu a sede do Império romano. A cidade, entretanto logo passou a ser chamada de Constantinopla, em homenagem a seu criador. Constantino morreu em 337 e seus sucessores trouxeram de volta a capital do Império para a península Itálica. Em 395, o Imperador Teodósio, às vésperas da morte, dividiu o Império em duas partes e entregou-as a seus filhos, Honório e Arcádio.
Ao primeiro coube o Império romano do Ocidente, com sede em Milão e depois em Ravena. Ao segundo, o Império romano do Oriente, que passou a ser chamado de Império bizantino a partir do século XIV. Séculos depois, Constantinopla, a capital, foi rebatizada com o nome de Istambul, que conserva até hoje.

Cidade de Istambul na Turquia (hoje)

Menos de um século depois da morte de Teodósio, o Império do Ocidente desmoronou. Em contrapartida o Império do Oriente se manteve relativamente estável e chegou a se expandir entre 527 e 565. Durante o século VII, sob o governo de Heráclito (610-641), o latim foi oficialmente substituído pelo grego como língua oficial do Império romano do Oriente. Com tudo isso, o título latino de “Augusto” dado ao imperador foi substituído por “basileu” que em grego significa ‘rei’.
A fama de Constantinopla devia-se principalmente ao seu intenso comércio. A cidade era o ponto de encontro de pessoas e mercadorias de várias partes do mundo. Conhecida como “Porta do Oriente”, recebia da China a seda. De outras partes do Oriente, como a Índia e o Ceilão, vinham as famosas especiarias (cravo, mostarda, noz-moscada, pimenta-do-reino) e os artigos de luxo. Esses produtos todos mais os brocados ( ricos tecidos de seda), as jóias e as imagens religiosas – artigos fabricados pelos artesãos bizantinos, eram exportados para o Ocidente com grande lucro.
Constantinopla foi a cidade da Europa medieval que melhor impressionou os viajantes do Ocidente.
Constantinopla se tornou conhecida também pela diversidade de povos e culturas que abrigava. Ali falava-se grego, mas nas ruas era comum se ouvir árabe, aramaico, hebraico, persa e outras línguas.
A capital do Império era também importante centro financeiro. Com freqüência, hospedava grande número de estrangeiros que vinham trocar suas moedas pela moeda de ouro bizantina. O império possuía também outras cidades prósperas, como, por exemplo, Alexandria.

Um poder absoluto

No Império bizantino, o poder do imperador era praticamente ilimitado. Segundo a crença da época, esse poder lhe havia sido concedido diretamente por Deus. Não havia separação entre o Estado e a igreja cristã. Embora a figura principal da Igreja fosse o patriarca, que era o cargo mais alto da igreja de Constantinopla, o imperador era seu sumo sacerdote e podia interferir em assuntos religiosos e até nomear o patriarca, a escolha devia ser feita a partir de uma lista tríplice proposta pelos bispos. Mas às vezes, o imperador recusava os três nomes apresentados e indicava uma quarta pessoa, por ser ela de sua inteira confiança. O patriarca além de ser a maior autoridade depois do imperador, era também auxiliar e conselheiro do governo. Por isso se diz que o Império Bizantino era uma teocracia – do grego theo (Deus), kratia (governo). Para os bizantinos, a autoridade, vinda de Deus, devia ser exercida pelo imperador na Terra. Esse tipo de organização do poder, no qual a autoridade política e a autoridade religiosa eram exercidas pelo imperador, ficaria conhecido mais tarde como cesaripapismo ou cesaropapismo.
No império bizantino, os ícones (imagens pintadas ou esculpidas de Cristo, da Virgem e dos Santos) tinham papel importante: serviam como estímulo para a devoção Os principais fabricantes de ícones eram os monges.
Em 726, o imperador Leão III, descontente com o crescente prestígio e riqueza dos monges, negou a validade dos ícones e mandou destruir a imagem de Cristo sobre o portão do seu palácio. Isto gerou violenta reação popular, que deixou mortos e feridos. Mesmo assim, o imperador proibiu o culto às imagens sagradas e a presença destas nas igrejas. Por isso o imperador e seus seguidores ficaram conhecidos como iconoclastas, aqueles que negam o valor religioso dos ícones.
A proibição do imperador atingiu fortemente os monges, os maiores fabricantes de ícones. Os monges reagiram liderando revoltas populares contra o império. O imperador, por sua vez, passou a perseguir os veneradores de imagens, sobretudo os monges; vários mosteiros foram demolidos, e seus habitantes presos ou mortos. O papa Gregório III interveio na disputa excomungando os iconoclastas. Depois de vários conflitos, a imperatriz Irene restabeleceu o culto às imagens, diminuindo as tensões.
O poder dos imperadores bizantinos sobre assuntos religiosos não era visto com bons olhos pelo papa, chefe da igreja de Roma. Assim pouco a pouco, as igrejas de Roma e de Constantinopla, que antes faziam parte de uma única instituição, foram se afastando uma da outra. Em 1054, o patriarca de Constantinopla rejeitou a supremacia do papa. Em represália, o papa o excomungou. A separação, conhecida como Grande Cisma ou Cisma do Oriente, tornou-se definitiva. Surgiram, então duas igrejas independentes: a igreja cristã do Oriente, mais conhecida como Igreja Ortodoxa, e a Igreja católica apostólica romana.
Na época, o cristianismo dos bizantinos já tinha se diferenciado bastante do que se praticava no Ocidente: a língua da missa era o grego, os rituais apelavam aos sentimentos, e não se aceitava a idéia da existência do purgatório. Este cristianismo peculiar foi se expandindo junto com as fronteiras do império: os bizantinos conseguiram converter alguns povos eslavos, como os russos e os húngaros, ao cristianismo.

Cristo Cura dois Homens Cego. Arte Bizantina, Séc. VI

A arte bizantina também é fortemente marcada pela religião. Por isso não é de se estranhar que a decoração das igrejas bizantinas retrate figuras e passagens da Bíblia na forma de pinturas e mosaicos.
Os bizantinos usavam a técnica de mosaicos para decorar o interior das igrejas. As figuras dos mosaicos são feitas de modo a serem imediatamente reconhecíveis quando vistas à distância. Por isso, só quando nos aproximamos deles é que ficam evidentes as pedrinhas ou vidrinhos usados na sua elaboração. Embora as figuras dos mosaicos pareçam bem simples, a sua construção exige planejamento prévio e paciência.
Os mosaicos tinham o objetivo de envolver o fiel em um clima de religiosidade e de tornar as passagens bíblicas conhecidas mesmo por aqueles que não sabiam ler.

Detalhe de mosaico bizantino (547-548) da Igreja de San Vitale, em Ravena, Itália, que mostra Justiniano, imperador do Império romano do Oriente (círculo de luz) em torno de sua cabeça era uma forma de representação que reforçava a crença bizantina na divindade do imperador

fonte: BOULOS JUNIOR, Alfredo. coleção História Sociedade & Cidadania. p.36-7.- vol. II. - CARDOSO, Oldimar. coleção Tudo é História.

O império romano do Oriente – Cronologia
(395 – 1453)


Em 476, as tropas romanas de Odoacro, rei dos hérulos, depuseram em Ravena o último imperador romano. Era o fim do Império criado por Augusto? Sim, mas só de sua parte ocidental. No Oriente o Império ainda sobreviveria por cerca de mil anos.
Esse Estado oriental com um pé na Europa ficou conhecido como Império romano do Oriente e depois Império bizantino, nome derivado de Bizâncio, cidade construída no século VII a.C. pelos antigos gregos às margens do estreito de Bósforo, entre o mar Negro e o mar de Mármara.
Em 330 o imperador inaugurou ali a cidade de Constantinopla, seria a capital do Império romano do Oriente.
• 330 O imperador Constantino inaugura a cidade de Nova Roma, que logo passará a ser chamada de Constantinopla.
• 527 Tem início o governo Justiniano, durante o qual o Império bizantino chegará ao apogeu.
• 565 Fim do governo Justiniano.
• 610 Sob o governo de Heráclito, o grego torna-se a língua oficial do Império romano do Oriente.
• 632 Tem início a expansão árabe-mulçumana.
• 641 Depois de ocupar a Síria, os árabes dão início à conquista do norte da África.
• 1054 A igreja cristã ortodoxa separa-se da Igreja católica apostólica romana.
• 1453 Constantinopla cai nas mãos dos turcos-otomano.



Teodora, mulher de Justiniano e imperatriz de Constantinopla, juntamente com seu séquito. Mosaico bizantino da Igreja de San Vitale, em Ravena na Itália atual.

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